Saúde ocular

Olho seco quase nunca é falta de lágrima.

Mulher fazendo uma pausa diante do computador — imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa gerada por IA.

Conteúdo em revisão pela Dra. Simone Vieira.

É a queixa mais comum do consultório e a mais mal tratada — inclusive porque várias das recomendações mais repetidas na internet não têm a evidência científica que se supõe que tenham.

Em 2017, um consórcio internacional de pesquisadores publicou o TFOS DEWS II, o

documento de referência sobre olho seco. A definição adotada ali muda a forma de entender o problema: o olho seco é uma doença multifatorial da superfície ocular caracterizada pela perda da homeostase do filme lacrimal, acompanhada de sintomas oculares.

Traduzindo: não é falta de líquido. É perda de equilíbrio. O filme que cobre a superfície do olho tem camadas — uma aquosa, uma oleosa, uma de mucina —, e o problema costuma estar na composição e na estabilidade desse conjunto, não no volume.

Por que o colírio sozinho quase nunca resolve

A causa mais frequente de olho seco não é a produção insuficiente de lágrima, e sim a evaporação excessiva. A camada oleosa do filme lacrimal, produzida por glândulas na borda das pálpebras — as glândulas meibomianas —, é o que impede a lágrima de evaporar rápido demais. Quando essas glândulas funcionam mal, a lágrima existe, mas não fica.

É por isso que tanta gente pinga colírio o dia inteiro e sente alívio por vinte minutos. O tratamento eficaz depende de identificar qual mecanismo está falhando — e o cuidado com as pálpebras costuma pesar mais do que o frasco.

O TFOS DEWS II também reúne os fatores de risco mais consistentes: idade, sexo feminino, disfunção das glândulas meibomianas, doenças do tecido conjuntivo, síndrome de Sjögren, uso de computador, uso de lentes de contato e terapia de reposição hormonal. A prevalência varia de 5% a 50% conforme a população estudada, chegando a 75% quando se consideram sinais clínicos e não apenas sintomas.

O olho que lacrimeja pode ser um olho seco

É a contradição que mais confunde. Quando a superfície do olho fica irritada pelo ressecamento, ela dispara um reflexo de produção intensa de lágrima — uma lágrima aguada, de emergência, que escorre e não protege. Muita gente chega ao consultório dizendo que o olho lacrimeja demais e sai com diagnóstico de olho seco.

Detalhe de um olho castanho e das pálpebras — imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa gerada por IA.

As telas, e o que a evidência realmente mostra

A síndrome da visão do computador afeta entre 75% e 90% dos usuários de computador, e a queixa de olho seco é parte central dela. O mecanismo é conhecido: a atenção sustentada em uma tela reduz a frequência do piscar, e piscar é o que redistribui o filme lacrimal sobre a superfície do olho.

Até aqui, consenso. O que surpreende é o que veio depois. Uma revisão sistemática publicada na revista Ophthalmology em 2022, reunindo 45 estudos clínicos, avaliou os tratamentos habitualmente recomendados para a síndrome da visão do computador. O resultado foi desconfortável: filtros de luz azul, lentes multifocais, ajustes ergonômicos, probióticos e a célebre regra 20-20-20 não demonstraram benefício significativo. A suplementação com ômega-3 apresentou evidência moderada de melhora dos sintomas, e os lubrificantes artificiais, evidência baixa.

Isso não significa que nada funcione, e nem que pausas sejam inúteis por outras razões. Significa que boa parte do que se repete como certeza sobre telas e olhos ainda não foi comprovada — e que um tratamento eficaz de olho seco precisa partir do diagnóstico do mecanismo, não de uma lista genérica de conselhos.

Quando procurar avaliação

Ardência, sensação de areia, vermelhidão persistente, visão que oscila e melhora ao piscar, desconforto com ar-condicionado ou vento, dificuldade para usar lentes de contato que antes eram confortáveis. São queixas tratadas com frequência como banais — e que, quando investigadas, costumam ter uma causa identificável e um tratamento específico.

Fontes

Craig JP et al. TFOS DEWS II Definition and Classification Report; Stapleton F et al. TFOS DEWS II Epidemiology Report. The Ocular Surface, julho de 2017. tearfilm.org Revisão sistemática sobre tratamentos da síndrome da visão do computador, reunindo 45 estudos clínicos. Ophthalmology, maio de 2022.

Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual. O diagnóstico só é possível em consulta, com exame completo.

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