A retinopatia diabética começa antes de qualquer sintoma. Quando a visão embaça, o dano na retina já está instalado há tempo. É por isso que a recomendação médica não depende da queixa: depende do diagnóstico de diabetes.
O diabetes afeta os vasos sanguíneos de todo o corpo, e a retina é um dos lugares onde essa lesão aparece mais cedo e de forma mais visível. Os capilares que irrigam a retina ficam frágeis, extravasam líquido, entopem, e o tecido responde criando vasos novos — vasos malfeitos, que sangram com facilidade e podem tracionar a retina.
Esse processo é lento, indolor e, na maior parte do tempo, invisível para quem o tem. A Organização Mundial da Saúde contabiliza 3,9 milhões de pessoas com deficiência visual causada por retinopatia diabética.
A retina é a única parte do corpo onde os vasos aparecem
Existe um detalhe anatômico que faz do exame de fundo de olho uma ferramenta incomum na medicina: a retina é o único lugar do corpo humano onde é possível ver vasos sanguíneos diretamente, sem cortar nada e sem contraste. O oftalmologista literalmente olha para a microcirculação.
Por isso o exame oftalmológico de quem tem diabetes não é só sobre a visão. É uma janela para o que está acontecendo com os pequenos vasos do organismo inteiro.
Quando começar a rastrear — a recomendação em números
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes é específica, e vale conhecê-la:
- Diabetes tipo 1 em adultos: iniciar o rastreamento ao completar cinco anos de duração do diabetes.
- Diabetes tipo 1 em crianças e adolescentes: rastreamento a partir dos 11 anos de idade, com pelo menos dois a cinco anos de duração da doença.
- Diabetes tipo 2: iniciar o rastreamento no momento do diagnóstico do diabetes.
- Acompanhamento: na ausência de retinopatia, ou em casos leves, o acompanhamento é anual. Em casos moderados ou graves, a frequência aumenta. A diferença entre os dois tipos não é arbitrária. No tipo 1, o momento do início da doença costuma ser conhecido. No tipo 2, o diabetes frequentemente já existe há anos quando é descoberto
- e a retinopatia pode estar presente no dia do diagnóstico.
O que aumenta o risco
A mesma diretriz lista os principais fatores: duração do diabetes, mau controle glicêmico, doença renal crônica, hipertensão arterial, gestação e dislipidemia.
A gestação merece atenção especial. A gravidez pode acelerar a progressão da retinopatia em mulheres que já têm diabetes, o que torna a avaliação oftalmológica parte do pré-natal — e não um item opcional.
Já a duração do diabetes explica por que ninguém "se formou" do acompanhamento. Um paciente com quinze anos de doença e glicemia impecável ainda precisa do exame anual.
O que é possível fazer
Quando a retinopatia é encontrada cedo, o controle rigoroso da glicemia, da pressão arterial e do colesterol é o que mais muda o curso da doença — e isso é feito em conjunto com o endocrinologista e o clínico, não pelo oftalmologista sozinho.
Nas formas mais avançadas, existem tratamentos consolidados: aplicação de laser na retina para conter o crescimento de vasos anormais, medicamentos aplicados dentro do olho e, em casos selecionados, cirurgia. Todos eles funcionam melhor quanto mais cedo entram em cena — o que nos devolve ao mesmo ponto: o exame anual.
Quando procurar avaliação
Se você tem diabetes e não faz exame de fundo de olho há mais de um ano, esse é o motivo. Não é preciso esperar visão embaçada, manchas escuras, pontos flutuantes ou dificuldade para ler — embora qualquer um desses sinais transforme a consulta em prioridade.
Fontes
Sociedade Brasileira de Diabetes. Manejo da retinopatia diabética — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026. diretriz.diabetes.org.br Organização Mundial da Saúde. Blindness and vision impairment — fact sheet. Atualizado em 10 de fevereiro de 2026. who.int
Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual. O diagnóstico só é possível em consulta, com exame completo.